O Elogio Ao ÓCIO - Um blog sobre tudo e sobre nada


 

     ENSAIO SOBRE UMA CONQUISTA

     Numa sociedade conformista, apática e sem idealismo como a nossa, qualquer forma de organização e mobilização popular em prol do bem de um coletivo contra interesses econômicos torna-se coisa de quem perdeu o trem da história, que não entende que "hoje manda quem tem mais grana".

     Aqui em Natal, temos o maior exemplo de como o capitalismo, a mesquinharia, o desejo incessante de lucro está acima de todas as coisas. Está pra ser inaugurado daqui a alguns dias o MidWay Mall, nada menos que o maior shopping da América Latina. Aproveitando cada centímetro do terreno de que dispunha o grupo Guararapes, propriedade do principal milionário papa-jerimum, e um dos mais endinheirados do País, o shopping não se preocupou nem um pouco com questões importantíssimas como o trânsito no local, que não está preparado pra esse empreendimento, além de problemas sociais, econômicos e ambientais.

     Uma questão que envolve diretamente a minha escola, é que o shopping acertou com o órgão público responsável a construção de uma passarela inovadora que acabaria por desenbocar numa área de preservação, que é o Bosque do Cefet, onde há prática de escotismo, aulas para turmas de controle ambiental e uma horta que serve ao refeitório da Instituição.


Passeata, ainda no seu início. Na frente da faixa e dos manifestantes, eu, de costas, e com camisa azul

     Nesta quarta, o Cefet organizou uma assembléia entre a comunidade (professores, alunos...) pra discutir essa questão. O Grêmio e o DCE foram muito além. A partir desta assembléia, as duas entidades organizaram a maior manifestação estudantil de protesto dos últimos anos. Com uma repercussão imensa, coberta pelas TVs locais, apresentadas nas capas dos jornais e citadas em um bom leque de páginas políticas nacionais, o movimento estudantil potiguar deu mostras de que, apesar da crise, ainda não morreu. Mais do que isso, mantém-se firme e forte. Talvez agora mais forte do que nunca esteve, visto a grandiosidade dos interesses que se estão combatendo.

     No final da manifestação, uma comissão de estudantes se reuniu com a presidência da Câmara, onde acertaram a ampliação do diálogo e a busca de uma solução comum, entre o Cefet, o Shopping e o STTU (órgão de trânsito).

     É um orgulho imenso pra mim, apenas ter participado da organização deste ato. Aproveitei e renunciei ao meu cargo de presidente do Grêmio, já que não tenho mais vínculo oficial à entidade (agora faço curso superior). Uma pena. Tenho uma ligação muito fraternal com o Grêmio. Mas depois de quase três anos participando, chega a hora de sair. Tempo demais, já. E foi ótimo enquanto durou.

Do rio que tudo arrasta,
Se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem.
BERTOLD BRECHT


     PELAS MULHERES

     O governo editou medidas, mês passado, que permitia que mulheres estupradas pudessem fazer o aborto sem precisar de um BO (Boletim de Ocorência), ou seja, sem esperar boa-vontade da polícia. Um grande passo no sentido de legalizar esta prática, que, embora seja muito condenada, é um ato particular a cada pessoa. Não há diferença entre fazer sexo via métodos contraceptivos e abortar depois de fecundo. Mas os moralistas de plantão sempre levam vantagem em debate público, por defender "a vida acima de tudo".

     O Governo Federal, claro, perdeu apoio no meio religioso. Houve cardeal, que, referindo-se a essas e outras medidas, disse que Lula poderia, acreditem, até ser excomungado! A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, oportunista como várias outras entidades político-religiosas já prepara seus representantes no Congresso para se aliarem à oposição. Mas é assim que funciona. Tal qual disse o Papa João Paulo II na sua primeira visita aos EUA, "a Igreja não é uma instituição democrática". De uma forma ou de outra, o movimento feminista agradece mais uma medida democrática do Governo.

 



Escrito por Leon K. às 06h00
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     PARANÓIA ANTIVERMELHA

     Segue a paranóia anti-esquerda na prefeitura e no governo de São Paulo. O governador Geraldo Alckmin já tinha editado como proibido - pasmem - a presença da cor vermelha (associada às esquerdas) dos prédios escolares do Estado. Inclusive projetos arquitetônicos que incluam a cor vermelha devem ser alterados, medida que é obedecida à risca pelos profissionais do setor, embora eles se mostem irritados com essa intervenção política em seu trabalho, na Folha de São Paulo - mas não se identificam.


Não são só os americanos que repudiam os vermelhos

     Inclusive na prefeitura José Serra, na cidade de São Paulo, o vermelho também foi banido dos uniformes escolares que o continham. Hoje esses uniformes - e inclusive o site da prefeitura - apresentam as cores azul e amarelo (as cores do partido do prefeito, PSDB).

     Na ocasião da mudança, a justificativa da prefeitura para a extinção dos uniformes vermelhos é que foi feita uma pesquisa entre alunos, que teria apontado alto índice de rejeição em relação à cor. A pesquisa, no entanto, não foi divulgada.

     Inclusive na prefeitura José Serra, na cidade de São Paulo, o vermelho também foi banido dos uniformes escolares que o continham. Hoje esses uniformes - e inclusive o site da prefeitura - apresentam as cores azul e amarelo (as cores do partido do prefeito, PSDB).

     Na ocasião da mudança, a justificativa da prefeitura para a extinção dos uniformes vermelhos é que foi feita uma pesquisa entre alunos, que teria apontado alto índice de rejeição em relação à cor. A pesquisa, no entanto, não foi divulgada.

 


     LIBERDADE AINDA QUE TARDIA. O PAPA MORREU*

     E demorou, mas chegou a hora. Na tarde de ontem, depois de dias agonizando numa crise praticamente ireversível, a ganância do Papa de não abandonar o cargo enquanto vivo foi consumida até o fim, e, com seu falecimento, (enfim) será iniciado o processo sucessório.


O Papa, em sua última aparição pública

     No caso do Papa - como acontece com muitos líderes políticos (embora esse Papa fosse altamente político) -, o seu carisma marcou mais que seu conservadorismo como líder religioso. João Paulo II hoje era mais um dinossauro vivo que um orientador moral ou ético. A inflexibilidade da Igreja acabou por dispesar muitos fiéis, que acabaram migrando pra outras religiões híbridas.

     A morte do atual Papa abre espaço pra que o próximo venha a seguir uma linha mais progressista. Dessa forma, a Igreja até poderia ver ampliada sua influência social e política, embora uma participação maior de líderes católicos em governos amplie as velhas tendências de descaracterizar o caráter laico do Estado.

     Enfim. Um mundo melhor nasceu no dia que morreu este velho ignorante da atual ordem. Pesquisas com células-tronco, genéticas, abortos, relacionamento entre homossexuais, respeito aos direitos feministas... poucos momentos são tão propícios a uma ruptura com uma velha forma de pensamento metafísico. Talvez seja o próprio catolicismo que esteja fora do seu tempo. Desde o Iluminismo que está assim.

     Não vou dar uma de Opus Dei. E não vou ser hipócrita. Abraço esse momento como o mais importante - e positivo, ironicamente - do ano.

     *mensagem que recebi no celular

 



Escrito por Leon K. às 08h16
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Nas grandes cidades,
no pequeno dia-a-dia,
O medo nos leva tudo
(sobretudo `a fantasia)

Então erguemos muros
que nos dão a garantia
de que morreremos cheios
de uma vida tão vazia

Nas grandes cidades
de um país tão violento
Os muros e as grades
nos protegem de quase tudo

Mas o quase tudo
quase sempre é quase nada
E nada nos protege
de uma vida sem sentido

Um dia super, uma noite super
(uma vida superficial)
Entre as sombras ,
entre as sobras da nossa escassez
Entre cobras,
entre escombros da nossa solidez

Nas grandes cidades
de um país tão irreal
Os muros e as grades
nos protegem de nosso próprio mal

Levamos uma vida
que não nos leva a nada
Levamos muito tempo
pra descobrir que não é por aí...
não é por nada não...
não, não pode ser...
é claro que não é, será?

Meninos de rua,
delírios de ruínas
Violência nua e crua,
verdade clandestina
Delírios de ruína,
delitos e delícias
A violência travestida faz seu trottoir
Em armas de brinquedo,
medo de brincar
Em anúncios luminosos,
lâminas de barbear

Viver assim é um absurdo
(como outro qualquer)
Como tentar o suicídio
ou amar uma mulher

Viver assim é um absurdo
como outro qualquer
Como lutar pelo poder
Lutar como puder...