O Elogio Ao ÓCIO - Um blog sobre tudo e sobre nada


 

     NÃO É POSE - NÃO É POSITIVISMO

     Acho que era em mais uma manhã perdida deste mês de março que passou. Como em todas as outras, em sempre ligo um FM pra ouvir alguma música e umas notícias-relâmpago (em rádios não-evangélicas). Até ouvir rapidamente que os Engenheiros do Hawaii, uma banda de uns 20 anos surgida lá nos Pampas, e que todo mundo aqui já ouviu falar (muitos até lembram de cor o hit Era um Garoto que Como Eu...), tinha vencido uma pesquisa encomendada por uma revista estrangeira.

Gessinger, Licks & Maltz: disco de 1993, pra muitos o melhor da banda (pra mim também)

     "Eu li isso em algum lugar"
     Até que depois, vasculhando a internet sem ter onde chegar, foi que vi que a revista americana BillBoard tinha encomendado uma pesquisa na qual os Engenheiros do Hawaii foi eleita simplesmente a banda que possuíam as letras mais inteligentes e profundas do mundo! Segundo uma pesquisa de popularidade para a mesma matéria, a conclusão foi que as bandas que passavam mensagens mais profundas tinham menos popularidade, apesar de haver as exceções (no caso brasileiro, a revista citou Legião Urbana, 15ª no ranking, e o lendário Raul Seixas). Outros que se destacaram foram Bob Dylan, Freddy Mercury (ex-integrante do Quenn, que morreu de Aids) e a banda setentista Led Zepellin, respectivamente 2º, 3º e 4º lugares.

     "Seria mais fácil fazer como todo mundo faz"
     A revista frisou também que a população brasileira não valorizava a qualidade nas letras (o que, convenhamos, é uma verdade absoluta). No exemplo americano, artistas e público dão muita atenção a modismos. O fato é que essa matéria só veio mostrar o que já era de conhecimento de todos: que os Engenheiros não são como qualquer banda de rock típica, que chega no palco apresentar sua pseudorebeldia, retratada nas caras de mau, nas roupas pretas e nos palavrões carregados, tais como as jovens bandas brasileiras. E no entanto Gessinger, com suas letras de várias interpretações, expressa mais rebeldia que qualquer outro poeta da sua geração. Curiosamente, o maior palavrão que ele cita numa música parte justamente duma música com letra romântica (Sem Você - !É Foda!). Ironias à parte, não há como dizer que Engenheiros é uma banda qualquer. Ao contrário, é única. Eu só comecei a ouví-los dia desses(há uns três anos.) Antes disso, não entendia pra que um cara faz uma banda pra cantar coisas como "será a estrada uma prisão?".

     "Nós vibramos em outra freqüência"
     A soronidade característica, a metaforização peculiar das letras, a facilidade de passar do pop-rock comercial a um progressivismo altamente experimentado. Dizem que uma banda também tem de saber a hora de acabar. Os Engenheiros bem que já poderiam ter dado "tchau", pois já falaram mais do que é costume ouvir. Mas felizmente, no fim ainda não se fala. E ainda que hoje a engenharia hawaiiana seja engrenada por Gessinger & Os Idiotas (os garotos Bernardo, Gláucio e Paulinho), ou à espera da veracidade de boatos de que a banda teria de volta o baterista Carlos Maltz, co-fundador, há 10 anos fora, eles continuam tendo o que  dizer. E o que mais me agrada é ver o Gessinger dizer nas entrevistas como "tocar aos 60 anos deve ser o máximo". Bom, sendo assim, até meus 40, terei o que ouvir.


Augusto Licks, guitarrista da banda até meados dos anos 90, a quem muitos deviam a qualidade sonora dos Engenheiros

     "Uma voz sublime, uma palavra sublime - um discurso SUBLIMINAR"
     E como homenagem, vou postar uma de minhas músicas preferidas da banda. De fato, não é uma música otimista, mas é uma das mais bem escritas por Gessinger, lançada no disco Várias Variáveis. Muros e Grades, tal como foi interpretada na revista americana, mostra como a sociedade é frágil e foge dos medos através da superficialidade.

Nas grandes cidades, no pequeno dia-a-dia
O medo nos leva tudo, sobretudo a fantasia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia |

Nas grandes cidades de um país tão violento
Os muros e as grades nos protegem de quase tudo
Mas o quase tudo quase sempre é quase nada
E nada nos protege de uma vida sem sentido

Um dia super, uma noite super, uma vida superficial
Entre as cobras, entre as sombras da nossa escassez
Um dia super, uma noite super, uma vida superficial
Entre sobras, entre escombros da nossa solidez

Nas grandes cidades de um país tão irreal
Os muros e as grades nos protegem de nosso próprio mal
Levamos uma vida que não nos leva a nada
Levamos muito tempo pra descobrir
Que não é por aí... não é por nada não
Não, não pode ser... é claro que não é, será?

Meninos de rua, delírios de ruínas
Violência nua e crua, verdade clandestina
Delírios de ruína, delitos e delícias
A violência travestida faz seu trottoir
Em armas de brinquedo, medo de brincar
Em anúncios luminosos, lâminas de barbear

Viver assim é um absurdo como outro qualquer
Como tentar o suicídio ou amar uma mulher
Viver assim é um absurdo como outro qualquer
Como lutar pelo poder

 



Escrito por Leon K. às 06h14
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