AO GIGANTE BAIXINHO
Ontem foi o dia. O último dia. Num jogo comemorativo aos 40 anos da Rede Globo, a Seleção Brasileira (que há muito tempo serve interesses mais econômicos que propriamente esportivos) apresentou-se enfrentando a modesta seleção da Guatemala. E Romário, que num espaço de 18 anos fez na Seleção o que poucos fizeram, raro exemplo de jogador que tornou-se unanimidade, despediu-se da Canarinho - e com chave de ouro.
 71 gols na Seleção, respeitado pela jovem guarda boleira, símbolo de uma era
Nenhuma importância tinha a data ou circunstância em que o jogo acontecera. Não importa se o adversário é uma seleção sem tradição no futebol. Tampouco interessaria se o time brasileiro apelasse de todas as formas para que o Baixinho fizesse um gol. Mas com Romário foi-se uma era. Foi ele o responsável por tirar 24 anos de fila na espera pelo título de uma Copa. Simplesmente o maior artilheiro da atualidade, a expressão mais verdadeira do termo homem-gol, respeitado até por outros monstros sagrados da bola como Pelé e Maradona. Em 1985, Romário já era ídolo no Vasco. Em 1987, estrearia na Seleção. No ano seguitne, brilhou na conquista do prata nas Olimpíadas de Seul, comandando a Seleção Brasileira. Foi virar rei na Europa, nos campos holandeses pelo PSV Eindhoven e nos elegantes gramados europeus, fosse pelo Barcelona ou pela curta trajetória no Valência. Gols, gols, muitos gols. Disputou duas Copas, foi injustiçado em outras duas - bem como em duas Olimpíadas.
Responsável direto pela conquista do Tetra, Romário deu baile aos olhos do mundo ao participar, direta ou indiretamente, de praticamente todos os gols do Brasil na Copa. Após a consagração nacional, de volta ao Brasil, foi artilheiro do Campeonato Carioca durante anos e anos seguidos pelo Flamengo, mesmo com times limitados - muito limitados. Romário enfrentou a antipatia de treinadores da Seleção que não queriam ser ofuscados pelo seu brilho. Ainda hoje é peitado, mais por inveja que propriamente por ineficiência. Mais que símbolo de gols, Romário é marca registrada de um tempo em que o futebol ainda não era tão chato. Ele não gosta da burocracia de treinar jogadas, de testes físicos, de concentrações vigiadas. O negócio é pegar na bola e fazer gol. Hoje, temos de nos contentar com jogadores que só fazem "o que o professor manda".
 Romário, com a camisa que lhe caía perfeitamente
No último jogo com a camisa da Seleção, Romário fez um gol e homenageou sua mais nova filha, vítima da síndrome de Down, expondo a camisa com a frase "tenho uma filhinha down que é uma princesinha". Levou um cartão amarelo por isso, como nos tempos em que também tomava ao fazer apelos pacifistas após os gols. Frescura. É assim que o futebol vai ficar, agora. À mercê não só do burocratismo dos árbitros, mas dos ternos e gravatas fora de campo.
71º gol na Seleção, Romário só é mesmo superado por Pelé. Próximo dos 900 na carreira, também só abaixo de Pelé no que toca ao futebol profissional. Romário é mesmo uma lenda que se despede. Durante todo o tempo, também foi alvo daquela famosa "inveja irracional", que citei num outro post dia desses (Abaixo os Melhores, 12/04), mas mostrava dentro de campo o que sabia fazer. Com muitas mulheres e muito dinheiro (até hoje o Vasco e o Flamengo deve milhões pra ele), Romário é ícone da bola. No País do Futebol, quem tem 1000 gols é rei. Romário é só um príncipe da bola - mas é um príncipe.
| DESPEDIDA DE ROMÁRIO |
 3min: cobra falta para fora. 8min: recebe lançamento longo de Léo, e finaliza em cima do goleiro Klée. 9min: recebe passe de Robinho, mas perde o domínio da bola. 16min: faz gol, após lançamento preciso de Ricardinho. 17min: recebe cartão amarelo por retardar reinício do jogo. 18min: livre na área, chuta em cima do goleiro. 26min: completa para as redes, mas tem gol anulado por impedimento. 38min: é substituído e dá lugar a Grafite. |
Escrito por Leon K. às 11h29
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
SÃO TODOS IGUAIS - MAS UNS MAIS IGUAIS QUE OS OUTROS
No começo do século XX ainda não havia essa heterogeneidade. Apenas após os primeiros e turbulentos 50 anos é que começou a haver essa revolução nos costumes (nada convencionado, na verdade). No princípio eram justamente os choques com o que era de conveniência. Fosse nos filmes de James Dean, em que ele se apresentava com camiseta (na época, uma "roupa de baixo") ou nas músicas ousadas de Esvis Presley, a sociedade estava vendo ser moldada as primeiras formas modernas de rebeldia juvenil.
Nos anos 60, já era uma bagunça. Nos Estados Unidos, reinava a "década perdida". Hippismo, desejo de liberdade, oposição ao sistema, a juventude colocando-se no campo oposto ao das gerações mais velhas. Nos outros países, a coisa acontecendo de forma semelhante. No Brasil, existia o tropicalismo, com suas críticas racionais, e a Jovem Guarda, com sua "rebeldia inocente". Moldava-se o contexto para os loucos anos 70, onde não se podia falar mal do regime, e a sociedade já se apegava ao péssimo hábito de ocupar seu tempo com TV. Drogas era da moda. A juventude pronunciava seu protesto fumando e cheirando nos corredores das escolas, transando desenfreadamente. A moda era Mick Jagger, Caetano Veloso... a moda era ser bissexual. Ou que fosse expressa apenas nos longos cabelos.
Os anos 80 foram apenas a coroação final dessa sociedade bagunçada. Foi a nossa década perdida. Na cultura, o país se viu invadido pelos hits internacionais, a "geração coca-cola" fazia desse país o paraíso mais kitsch até então. Uma nova leva de músicos surgia e era esquecida no instante seguinte. Era a indústria aproveitando o filão do mercado fonográfico. Alguns ícones (seja na música, no futebol...) ainda se postavam de forma que contrariava o que era de costume. Era a eterna rebeldia fajuta, sempre presente. Todo mundo, então queria ser louco.
Nos anos 90, e daí chegando aos 2000, já não havia mais nada. A Guerra Fria já havia acabado, o idealismo enfraquecido, lutar contra o sistema era coisa de quem perdeu o trem da história. Mas sempre há quem queira ser diferente. A geração teen aglomera-se em raves, as bandas de rock não têm mais o que protestar, mas protestam (o que buscam com isso não se sabe). Pegando carona, vira moda qualquer forma de rebeldia. Seja usando calças baixas, de forma que até a cueca aparece. Ou não amarrando os cadarços dos tênis. Ou pintando os cabelos. Ou bancando o louco com seu palavreado ridículo.
O que acontece é que o que era uma forma de expressão, agora já tornou-se algo mais do que manjado. Ninguém quer mais ser rebelde, mas todos querem ser loucos. Tá nos sites de buscas que não me deixam mentir. É só digitar, por exemplo, o subtermo louk e aparecerão trocentos links para blogs ou semelhantes. Então fica toda uma geração pseudo querendo passar imagem de diferente, cada um querendo ser "único", e no fim das contas, são todos iguais.
Esbarrar com pessoas assim, na net ou na vida real, é, talvez, o maior exercício que se pode fazer para suportar uma pessoa entediante. Criticamente, é o protótipo de pessoa mais vazio e presivível que existe. E o mais disseminado, paradoxalmente. Daqui a pouco, estará todo mundo louco. E ser considerado louco não foi algo tão pouco elogiável.
A MODERNA INQUISIÇÃO NO PODER
E todos viram. Era mais do que previsível: se o Papa João Paulo II era até carismático, e contava a seu favor a "luta contra o mau" na Guerra Fria, agora a linha-dura está definitivamente no Poder, acima do "pequeno" Império que detém a Igreja Católica.
Para um Conclave, a forma institucionalde se eleger um novo Papa, o João Paulo II - que não pensava em largar o trono antes da morte - já havia nomeado a maioria dos cardeais. Com praticamente todos da direita católica, Wojtyla não teve problemas em deixar assegurado o lugar para seu braço direito, o cardeal alemão Joseph Ratzinger.
Se o Papa João Paulo II tratou de aproximar a Igreja Católica dos judeus, que sofreu o ápice da perseguição pelos cristãos no regime nazista, temos como Pontífice ninguém menos que um ex-membro efetivo da Juventude Hitlerista, o qual lutou no Exército Nazista alemão, e chegou mesmo a ser prisioneiro de guerra dos aliados. Não à toa, Ratzinger é conhecido em Roma como Panzerkardinal (Panzers são os modernos tanques de guerra nazistas).
 Ratzinger um ex(?)nazista no trono de Roma
Quando do pontificado de João Paulo II, Ratzinger adquiriu grande influência entre as autoridades católicas. Coube a ele a tarefa de "decapitar para depois domesticar" a Teologia da Libertação, uma simples idéia de uma igreja mais popular e fiel ao Evangelho dos pobres. Silenciando com medidas autoritárias todas as discussões referentes a questões teológicas (celibato dos padres, fecundação artificial, preservativos anti-Aids), advertindo, perseguindo ou vigiando pensadores da Igreja e impondo uma rigidez doutrinária total ao que era produção intelectual da Igreja, Ratzinger instaurou o medo nas filas da Igreja, e hoje é uma autoridade intocável mais baseando-se na sua rigidez e intransigência no poder que, propriamente, no respeito a que lhe devem.
Num dos escritos recentes mais polêmicos, o "Catecismo da Igreja Católica" e a "Dominus Iesus", Ratzinger, na maior sem-cerimônia, fez-nos reviver os distantes tempos do primitivo pensamento medieval e apresentou a Igreja Católica como detentora de toda verdade e salvação.
Apresentado pela grande mídia como intelectual conhecedor e entendedor dos novos caminhos que a Igreja Católica deve tomar, a interpretação a se fazer desta figura arrogante e impostora pode ser, talvez, a mais errônea que se pode fazer dos líderes atuais. Absolutamente descrente em qualquer forma de "otimismo" ou "fé na bondade dos homens", Ratzinger é por alguns intelectuais comparado ao compatriota Martinho Lutero, sendo, como Lutero, um homem "hipnotizado pelo mal".
O pontificado de Bento XVI iniciou-se neste domingo. Pelo futuro todos nós ansiamos. Se o novo Papa for prudente e usar a sua intelectualidade para ajudar a ambientar a Igreja no século XXI, tal como seu antecessor não fez, missão cumprida. Mas se seguir a própria história, o mundo, que hoje já parece tão perigoso quanto nos tempos da Guerra Fria, pode se tornar um lugar ainda mais turbulento.
Escrito por Leon K. às 01h15
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|