UM DESSERVIÇO AO BRASIL
Alguém leu a SuperInteressante esta semana? A minha revista preferida, compiladora de grandes matérias sobre os mais diversos assuntos, lançou discussão a respeito dum dos assuntos mais controversos que poderia expor: a Rede Globo, detentora extra-oficial dos destinos da Nação.

Tudo bem que a revista expôs tanto bens quanto males da emissora, desde sua fundação, até nossos dias, mas a ética jornalística firmou a estratégia utilizada, que visava a nada mais que redimir a Globo: simplesmente deu mostras de como a Organização intervia na política, na vida social, enfim, nos rumos que o País tomava pra depois fazer dela berço do avanço cultural brasileiro, e porta-voz da população.
O fato é que a Globo está longe de ser considerada benéfica à sociedade brasileira, salvo localizadas exceções. Primeiro fato: a Globo é filha legítima da ditadura militar que reprimiu toda uma geração, e serviu como braço ideológico do regime, moldando corações e mentes de milhões de brasileiros. Naquele contexto, nunca se pronunciou contra a censura prévia à imprensa (apresentava receitas de bolo no Jornal Nacional) e ignorava a violência contra militantes políticos (aliás, anos depois, em 1989, o próprio Roberto Marinho em pessoa encarregou-se de censurar a cobertura das eleições gerais daquele ano). Quando algum aparecia morto, dizia-se que havia sido atropelado. Oportunista, sempre esteve ao lado dos governos, civis ou militares, fosse o presidente um latifundiário, um general, um sociólogo, um metalúrgico ou um corrupto descarado.
O Jornal Nacional, considerado suprasumo do jornalismo televisivo, nada mais é que um departamento de manipulação. Não basta ser taxado carinhosamente de Ilha da FantaSia, por distorcer notícias, omitir fatos e ficcionar a História brasileira e mundial. É de conhecimento geral que o noticiário veicula seus informes com um irrisório vocabulário de não mais que 850 palavras, e apresenta o quadro político nacional e internacional de não mais que uns vinte minutos, tão rapidamente que não permite às despreparadas mentes de seus telespectadores o raciocínio acerca do que é passado. E se tiver algum integrante da emissora envolvido, imagine-se! O quase imperceptível em vida jornalista Tim Lopes, de quem eu podia até ter ouvido falar antes de sua morte (a imagem que ele ganhou foi de um herói morto, e pouco ou nada lembram de sua vida) virou mártir do jornalismo, ganhando especiais e mais especiais. Superou até o Papa, de cuja agonia e funeral foi tido como o fato mais noticiado da História.
A programação da Globo trata o telespectador como se fosse deficiente mental, dando-lhe tudo pronto e mastigado, para sentir sem refletir, enquanto o embala com temas suaves e músicas melosas deixando-o receptivo à enorme quantidade de lixo que vendem como informação ou cultura. A idolatria que a TV tradicionalmente faz. Veja-se o caso de Ayrton Senna, cuja vida e morte é mitificada e alimentada a cada ano. Mais do que um esportista de fato fora do comum, ele é um fetiche audiovisual dos brasileiros.
Sem falar na incompetência na elaboração de planejamentos financeiros. Há meses atrás, a emissora chantageava o Governo para que o BNDES lhe cedesse um bilhão de reais, pra sanear suas dívidas, adquiridas em compra de direitos de transmissão de torneios internacionais de futebol. Que, na verdade, não passa de monopólio de informação: há três semanas o UOL Esporte não podia sequer apresentar os gols da rodada do Campeonato Brasileiro, já que estes só poderiam ser liberados pela Globo. E se o Brasil é o País do futebol, a Globo tem prato cheio: ou não se sabe que Galvão Bueno, com sua voz metálico-ufanista faz lá seu lobby, pressiona dirigentes, escala jogadores e demite técnicos de Seleção? Ainda falando em futebol, o canal ainda subverteu este que é um dos mais tradicionais e sagrados pilares do povo brasileiro: jogo ao vivo na TV só depois da novela das oito. E alguém se lembra dum célebre jogo entre Brasil x Argentina, em Buenos Aires, em 2001, quando a Globo tentava adiar o jogo em uma hora, pra permitir a exibição da novela antes? Pois é, não conseguiram e ainda fomos malhados pelos argentinos: "os brasileiros preferem ver novela a futebol". Mas pra emissora é sagrado: a novela - das oito - ainda foi exibida, depois do jogo - às 22h.
 Nunca a Globo prestou contas à opinião pública sobre o destino do dinheiro do projeto Criança Esperança. Mas, em se tratando duma organização privada, sabe-se que ele vai para muitos bolsos. Uma merreca vai para os Programas de Caridade.
Tocando no assunto novelas, talvez o tema em que haja mais discussão. Mas não há o que discutir: através delas, Roberto Marinho até a fala do brasileiro, jogando no ralo a cultura, o folclore, o dialeto e os sotaques regionais. Nelas, 90% (ou mais) dos atores são brancos, bonitos e musculosos. Os poucos atores negros agem como brancos. As atrizes negras que não são empregadas domésticas são lindas e gostosas, e hão de posar pra Playboy. Aliás... 80% deles não são atores: são modelos de publicidade, que aparecem principalmente naquele laboratório de 'artistas' tido como novelas chamado Malhação. Sem falar nos enredos em que o pessoal vive correndo atrás da mãe verdadeira, do pai verdadeiro e a grande dúvida é saber se o filho é legítimo, a que chamam dramaturgia.
Tenho dito. Não há nem o que discutir. Ah, a Globo também trouxe algo de bom? Mas claro.. num é possível que em 40 anos não tivesse trazido nada de proveitoso. Mas tenho plena ciência de que com esse post faço mais bem à liberdade da consciência humana que a Globo o fará com toda a próxima semana de programação.
Escrito por Leon K. às 11h38
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